DIVERSIDADE DE CORPOS NA SPFW N52?

Concedi uma entrevista à CNN Brasil, com texto de Felipe Carvalho, sobre minhas considerações em relação à SPFW N52. E achei importante estender mais um pouco essa discussão e publicar parte dele aqui em meu site, com mais considerações como especialista em moda e mercado plus size, sobre a semana de moda aqui em Sampa.

A SPFW N52 esse ano trouxe o título de Regeneração com o objetivo de abrir as portas para pessoas de diferentes tipos de corpos, gêneros e tons de pele.

Abrir as portas de um evento de moda e promover a inclusão das massas, nos leva a comunicar com essas pessoas e dar voz para novas interpretações, narrativas e criações. O verdadeiro e importante papel da moda, na minha opinião.

Foto: Projeto Cria Costura|SPFW (Reprodução/Instagram)

Foto: Projeto Cria Costura|SPFW (Reprodução/Instagram)

Entre as transformações mais visíveis nesse ano, acredito que o fato de a organização ter trazido um trabalho realizado o ano todo, com mentorias, apoio e fortalecimento de marcas, promovendo conexões e transformação social, foi muito importante. O suporte a empreendedores racializados também foi uma ação diferenciada e mais que necessária, apostando em marcas novas no cenário da semana de moda, apadrinhadas inclusive, por marcas já veteranas nesse cenário. E o resultado foi excelente, o projeto Sankofa entregou e deu o nome na passarela.

SPFW-N52 - THAÍS CARLA - IMAGEM FASHION BUBBLES

SPFW-N52 – THAÍS CARLA – IMAGEM FASHION BUBBLES

 

A edição ter sido híbrida, trazendo o conceito ‘phygital’, também teve uma grande importância para novas narrativas e disseminação da informação de moda. Os desfiles presenciais e digitais comunicam moda para vários canais, democratizam a participação das marcas e possibilitam que profissionais de moda ou não possam compreender mais, aprender mais, criar novas e potentes interpretações, narrativas e aplicações para a linguagem da moda.

Mas apesar de ter sido uma edição onde foi visível a diversidade de cor de pele e gênero, ainda foi muito tímido o mergulho em direção à diversidade de corpos.

Não acredito que aos poucos olharemos com mais carinho para pessoas gordas, quando o que se é realmente necessário promover para chegarmos lá, não foi feito ainda nas semanas de moda brasileiras. Senti falta de marcas que produzem exclusivamente para pessoas gordas de fato, no evento. Senti falta de mais influenciadoras gordas sendo convidadas para a cobertura. Senti falta também de especialistas em moda e mercado plus size nas mentorias e capacitações às marcas, além dos debates e apresentações e senti faltas de modelos gordas de fato nas passarelas.

SPFW N52 - SILVIA NEVES - APARTAMENTO 03 - FOTO VOGUE

SPFW N52 – SILVIA NEVES – APARTAMENTO 03 – FOTO VOGUE

O que vimos foram pequenas introduções de corpos maiores que já acontecem desde o desfile icônico da Lab Fantasma em 2016. Ou seja, de lá para cá não evoluímos.

Ainda somos cota. E uma cota tímida.

As marcas insistem que inserir apenas modelos ‘curvy size’ nas passarelas é promover inclusão. E não é. Muitas delas ainda confeccionam somente peças conceito desta categoria para os desfiles e não comercializam essas numerações em suas lojas de fato.

E quando produzem, chegam somente até a numeração GG, e essa não é a inclusão necessária. Como especialista em moda e mercado plus size, trabalho incansavelmente para ampliar, de forma justa, a grade de manequins de marcas pelo Brasil. E afirmo que a introdução à inclusão é produzir manequins de numeração do 44 ao 56, no mínimo. Esse é o verdadeiro movimento inicial que precisamos como sociedade, em busca da inclusão de corpos de fato. Já que corpos à partir da numeração 58, são considerados inexistentes pela moda. E o objetivo é chegar até numerações como o 66.

SASHA MENEGUEL - RITA CARREIRA - SPFW N52 FOTO FASHION BUBBLES

SASHA MENEGUEL – RITA CARREIRA – SPFW N52
FOTO FASHION BUBBLES

Queremos e precisamos com urgência ver corpos maiores, a partir do manequim 52, em maior número nas passarelas.

O Projeto Sankofa e suas marcas, foram os que mais se aproximaram de um movimento realmente diverso de corpos. Ainda falta um longo caminho, mas ali avançamos. E já foi um show. Mas só essa narrativa não é suficiente. As marcas veteranas ainda insistem em negar esse Universo.

E a ironia foi observar que nos bastidores do evento, entre o staff e frequentadores, havia uma diversidade e variedade de corpos diversos. De numerações de manequim desde o 44 até o 66, presentes no evento, sedentos por moda, trabalhando para a moda e não sendo contemplados nos desfiles. Nunca vi tanta presença gorda de fato em uma edição da São Paulo Fashion Week entre os frequentadores, o que para mim, demonstra o quão lento e talvez ainda na contramão do apelo público, nesse quesito, ainda esteja o evento.

Finalizo esse meu texto, afirmando que nesse mundo pós pandêmico, marcas que apostarem em propósitos coerentes e de cunho construtivo para a sociedade, terão sim reconhecimento pelo importante papel social que promoverem.

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